Alumbramento - Romar Beling

Uma conjuntura de fatores felizes cerca o segundo livro de poemas de Isabel Mueller.

O primeiro desses elementos já está no título, de uma sutileza, de uma pertinência e de uma intuição inegáveis: Alumbramento. Mais uma vez, fica evidente que Isabel sintoniza com uma vertente muito pura da poesia: aquela que fala direto à alma e ao coração. E essa talvez seja a vertente – dentre tantas outras, de estrato social, intelectual, existencial, histórico – que traz mais calor humano. O livro, de 84 páginas, editado pela Publit, do RJ, requer muito mais do que uma única leitura. Quer releituras freqüentes, sempre mais e mais reveladoras.

Compreende-se que Isabel sabe do que fala. Está claro que ela sente o que escreve. Alumbramento bem pode constituir um desses conceitos-chave na poesia, algo como a “epifania”. Para Manuel Bandeira, por exemplo, assumia significado muito especial. Procura traduzir aquela súbita iluminação – a revelação, a máxima claridade – diante do cotidiano. No caso de Isabel, trata-se desse mágico e misterioso cenário da vida interior, que interage com o exterior, com o outro, por meio de todos os sentidos.

Outra feliz circunstância em Alumbramento é o diálogo que estabelece com o livro de estréia da autora, Céu da Boca, de 2002, então lançado pela Papel&Virtual, também do Rio. A poesia de Isabel é de síntese, de extrema contenção. São poemas curtos, sem título (que assim gravitam diretamente em torno do título geral da obra, ampliando sua extensão), marcados por musicalidade, ritmo e leveza muito peculiares. A inspiração, a intuição de Isabel é um mergulho no plano onde sentimentos, sonhos, sensações, angústias e devaneios se intercruzam. Na volta à tona, ela consegue traduzir esses sutis vislumbres em versos certeiros, signos eficientes, imagens carregadas dessa significação sempre tão difícil de encontrar num poema.

MUNDOS – Mas não se poderia ignorar uma associação muito particular nessa obra. Graças à condição de poeta e de astróloga, Isabel Mueller sugere uma sublime associação – um maravilhoso trânsito – entre dois mundos (dois planos), espécie de síntese da potencialidade humana de enxergar além dos seus horizontes. Seja por meio dos astros, da conjuntura do universo; seja por intermédio da poesia, da linguagem elevada a seu grau máximo de significação, o que Isabel faz é “ler” o mundo interior, sua memória e sua história. Nesse momento, passado, presente e futuro se tocam, se completam, complementam, revelam.

Alumbramento talvez seja justamente isso: a capacidade de ver o que nem todos vêem, ou estão dispostos a ver – inclusive de antecipar, pela intuição, sentimentos e sensações que um dia, de algum modo, serão de todos. Que bom que Isabel, em sua poesia, aceita compartilhar com o leitor esse universo que a constitui. Graças a esse gesto, seu alumbramento também é nosso.
 


Para adquirir o livro: contato@isabelmueller.com.br

Conheça algumas poesias de

ALUMBRAMENTO:


As costas revoltas orlas

recostam meu ser

As baías funduras que avisto

que sonho e insisto sem nunca saber

Mas sentir é saber

e saber das vísceras é visão de têmporas

temporais que limpam o que ficou para trás

O que ontem eram medo

hoje só mais um enredo

de montanhas e tais.


O fel do não expresso

cria um pus um abscesso

do que jamais irá curar

sem a coragem de expulsar

Demônios são anjos disfarçados de inconsciente


Tua reza tem de ser o ato

o gozo o substrato

de onde emana a criação

espalha esse lume

há sempre sombras que se querem luzes


Somos tão iguais nas buscas

mas ninguém se atreve à simplicidade

busca-se sofisticação

e vira treva a solidão

Um abraço pode bem mais

um sorriso cura

a alma em desaviso


Miragens

olha dentro e não te esconde

aprende o que já sabe

o que estás prestes a apanhar

feito fruta madura

esperando o teu estender


Muito mais que cérebro

somos carne de emoção

somos pele de vulcão


Tudo pode ser

diferente eloqüente

semelhante abundante

O amor que se propaga

é sol que irradia

é espelho que reflete

de dentro a ventania


Muitas são as profecias

tantas as vias

levam a direção que ousares

já sabes o que não queres reconhecer

o coração sem suspeita

tem formas de saber

consulta-o

quando bifurcarem as opções.


Tantas luzes artificiais

os ciclos de naturalidade já não mais se fazem

por isso a loucura bipolar depressão

nomes da contramão

de ser

por não ter a coragem de ver

de buscar algo mais que os plásticos artifícios

supermercados de alma vender


Movimentos necessários

mãos que se estendem

na direção do contato

Com  tato  saberei

o que nem sequer

de perguntas eu me encorajo


Não recuses um diferente

um nome que não sabes uma emoção que não sentes

os rumores chegam onde os portos não ancoram

a vida saúda-se por encantamento passagem

Descansarás quando a eternidade vier

e ainda que seja tarde essa idade

eterno tempo um dia haverá


Nesses tempos desencantos

onde os porquês parecem tantos

sem chegar a conclusões

apenas ousa

experimenta

ausenta-te

e então serás.


Recolhe-te aos teus espaços

como as aves retornam aos ninhos

depois de muito ver do alto