POESIAS   ©  Isabel Mueller  


Somos tão iguais nas buscas

mas ninguém se atreve à simplicidade

busca-se sofisticação

e vira treva a solidão

Um abraço pode bem mais

um sorriso cura

a alma em desaviso


Feito folhas que se renovam

ondas que se propagam

universos que se desdobram

dentro há um espaço ilimitado

se desperto da letargia

outras cores anuncia


Miragens

olha dentro e não te esconde

aprende o que já sabe

o que estás prestes a apanhar

feito fruta madura

esperando o teu estender


Muito mais que cérebro

somos carne de emoção

somos pele de vulcão


A hora é sem demora

interminável é a espera de não saber onde ir

Morra para as pedras do acomodado

recosta teu ser num regato

 a água sempre muda

sentimentos e imagens

Num lar esquecido

está um ventre enternecido

gestando o amanhã


Tudo pode ser

diferente eloqüente

semelhante abundante

O amor que se propaga

é sol que irradia

é espelho que reflete

de dentro a ventania


As costas revoltas orlas

recostam meu ser

As baías funduras que avisto

que sonho e insisto sem nunca saber

Mas sentir é saber

e saber das vísceras é visão de têmporas

temporais que limpam o que ficou para trás

O que ontem eram medo

hoje só mais um enredo

de montanhas e tais.


Muitas são as profecias

tantas as vias

levam a direção que ousares

já sabes o que não queres reconhecer

o coração sem suspeita

tem formas de saber

consulta-o

quando bifurcarem as opções.


Tantas luzes artificiais

os ciclos de naturalidade já não mais se fazem

por isso a loucura bipolar depressão

nomes da contramão

de ser

por não ter a coragem de ver

de buscar algo mais que os plásticos artifícios

supermercados de alma vender


Movimentos necessários

mãos que se estendem

na direção do contato

Com  tato  saberei

o que nem sequer

de perguntas eu me encorajo


Não recuses um diferente

um nome que não sabes uma emoção que não sentes

os rumores chegam onde os portos não ancoram

a vida saúda-se por encantamento passagem

Descansarás quando a eternidade vier

e ainda que seja tarde essa idade

eterno tempo um dia haverá


Tua reza tem de ser o ato

o gozo o substrato

de onde emana a criação

espalha esse lume

há sempre sombras que se querem luzes


Nesses tempos desencantos

onde os porquês parecem tantos

sem chegar a conclusões

apenas ousa

experimenta

ausenta-te

e então serás.


Urano, o céu
E Gaia, a terra
celebram-se
elétrica tempestade
que sacode pensamentos
no caminho do novo.
Raios de luz
seduzem
almas da vanguarda.


Vertigem da luz que fere

o olhar obscurecido

da lucidez em coma

na vigília do cotidiano.

Algo insiste na transposição do estar

simultâneo vagar:

o êxtase é um instante adormecido

que a poesia quer acordar


Como as flores que pacientes vivem o seu desabrochar

assim deves ter a consciência do tempo

(pois ele tudo devora

a quem mata a hora)


Impressões, sentimentos, vazão de águas e amores

que revele o que em mim é mistério

Unir tudo, fragmentos de gente que se espalham

e enfumaçam certezas de outrora

Deixar sussurar nos ouvidos a força desses zumbidos

feito um gemido que despedace as perguntas e os porquês

Quanto mais longe vou, mais perto de mim estou...  

 


Recolhe-te aos teus espaços

como as aves retornam aos ninhos

depois de muito ver do alto


No espaço horizonte

o dia penetra a noite

para dar à luz

o filho madrugada

que é sonho estranho a alguns

e lucidez estrela a outros


A vida pousa paralela

em luzes que não supões

os extremos cortam as noites

quer te entregues ou não

fogueiras queimam como outrora

na loucura adormecida pelas máscaras

ruidoso silêncio das tentações


Nada espero

além do rio que flui

qual corpo mutante

desejo sem horizonte

nem medo


Que posso querer

se a alma dorme

nos sons que não permito

Que tudo seja breve 

não exclui o infinito 


No silêncio fecundo

brota a voz da garganta

trêmula de desejos

do que jamais foi dito

poço fundo do impensado


Um cheiro de noite

de vento distante

de sopro mirante

de vidas que se cruzam

de sonhos não realizados

utopias que gritam

peles que ardem

em ânsia por outras peles

que jamais se revelarão

olhos que cegam de ver o invisível

toques que se recolhem

encontram a solidão


O tempo de uma vida

o templo de um deus

a farsa das lógicas.

Se não buscas o dentro

que importa o farol?

Sinuoso é o caminho

que nos conduz de volta...


Nascer

é o palco estrear

o fio tecer

o sonho acordar

Nascer

é só mais uma chance

da chama perpetuar


O distante logo ali

é mais belo que o agora bem aqui

( e seu relógio sem trégua )

No longe das léguas

traço o destino

entre o arbítrio

e o infinito.


Medo do escuro em nós

que é sombra sentença

Tudo nos tornará 

mais fortes e humanos

embora cansados

do sempre mesmo espelho


Águas que mergulhei

útero oceano da emoção

maré vazante de humores

que em líquidos vapores

um dia sereia serei


No abraço eu percebo

o que une ou desintegra

a fusão de peitos jeitos

em bocas diversas

que em versos traduzo

introduzo


 

Esses tais tabus

que em tábuas da lei

e livros de reis

propagam-se no tempo

são armadilhas

para que não ouses

o proibido

doce cálice

da transgressão


Oceano mar da vastidão

do outro lado repousará

inconsciente que emerge

mundos de nós

em tantas profundidades

que nos permitiremos...


Quando os parques desfolham

é hora de morrer para o que passou

sem desespero nem dor

feito fruto que apodrece

por já ter se dado inteiro


  

O que pode a vida ser

sob telhados que abrigam

esquinas que se encontram

portos de partida, cais.

Longo é o sono do viver

gestação que alumia.


Limbo limiar

lavas do renascer

cava funda dos tesouros

nas moradas do ser


 

No ar que tudo comporta

na terra chão semente

pensamentos são plantas 

que se regam crescem

e morrem novamente


... o medo

humana criação

asas que se cortaram

da divina filiação ...


Por mais que a vida

segregue segredos

por mais que a morte

carregue seus medos

hão de se encontrar

por um instante

semente passagem

curva do horizonte


A poesia é palavra pura

segura de que tudo diz

num rompante

esse preciso instante

que a alma ventura

captura.


A voz do tempo

ecoa nas paredes

dos limites e sonhos

muros do sentido

que haverei de descobrir.

Tudo igual como dantes:

o futuro é o passado

travestido do agora

até que se atravesse

as portas da percepção.